setembro 20, 2012

Visão: Regras do Acordo Ortográfico - vol.2





Visão desta semana oferece o segundo de dois volumes de um manual explicativo do Acordo Ortográfico.




Índice do 2º volume:
- Trocado por miúdos [exemplos de aplicação]
- Agora sem ajuda [exercícios]
- História da ortografia
- Polémica


setembro 19, 2012

O PEN Internacional sugere que a Língua portuguesa deve retomar o anterior estatuto de inferioridade face às outras Línguas internacionais recuando na aplicação do AO90

O Centro português do PEN Internacional pediu e viu aprovado no 78º congresso do PEN Internacional um parecer negativo sobre o AO90.

Nos termos desse parecer:

- O PEN Internacional concorda com os representantes portugueses quanto à rejeição da estandardização ortográfica na Língua Portuguesa; entretanto, nenhum representante de países que usam outras Línguas internacionais com ortografia uniformizada – Francês, Holandês, Alemão, Árabe e Espanhol – se queixaram da existência de malefícios advenientes da estandardização das respetivas ortografias.

- O PEN Internacional considera que a estandardização ortográfica limita a criatividade e a diversidade na Língua Portuguesa; a "prová-lo" deu como bons exemplos de respeito pela criatividade e diversidade precisamente duas Línguas internacionais com ortografia estandardizada: o Francês e o Espanhol, como se pode ler nos dois trechos seguintes extraídos da tradução divulgada pelo Centro português::
"A força motriz da língua francesa hoje em dia, com origem em todas as suas bases pelo mundo fora, é de tender para uma inclusão das diferenças na língua. O resultado é a possibilidade crescente de uma atmosfera nova e muito positiva em torno do Francês, por exemplo em África."
"São precisamente as diferenças locais, nacionais e hemisféricas dentro da língua espanhola que lhe conferem uma força crescente. As diferenças nutrem-se mutuamente. A criação do Dicionário da Real Academia Espanhola, em cooperação com as Academias de língua espanhola em todo o mundo, tinha como objectivo incluir todas essas diferenças." 
- O PEN Internacional desaprova que em Portugal a ortografia esteja a ser imposta através do Estado; mas nada refere quanto ao facto de todos os Estados imporem a norma ortografia pelas mesmíssimas vias administrativas.

- O PEN Internacional lamenta que as empresas exijam que os tradutores escrevam sem erros ortográficos, isto é, segundo a norma ortográfica vigente; mas não parece mal ao PEN que se passe o mesmo em qualquer outro país, sob pena de serem os utentes da Língua a queixarem-se dos tradutores e das empresas que os contratam.

- O PEN Internacional queixa-se da suposta obrigatoriedade do uso de ortografia atualizada pelos escritores; mas omitiu o facto de não existir qualquer escritor que alguma vez tenha sido impedido de publicar usando a ortografia antiga.


Infelizmente, o PEN Internacional atendeu apenas à opinião que foi aprovada pela maioria dos associados do Centro português Foi pena, porque, por exemplo, talvez a consideração da opinião de escritores como Alice Vieira, Lídia Jorge, Mia Couto, ou José Eduardo Agualiua tivesse impedido o PEN de aprovar um parecer que pede para a Língua Portuguesa um estatuto de inferioridade face àquele que atribui a outras Línguas internacionais.


Leituras complementares:

setembro 14, 2012

"sou português, cidadão da língua. sigo o acordo ortográfico"

Aqui fica a segunda descoberta tardia mas preciosa (a anterior foi esta).

Deliciem-se.
sou português, cidadão da Língua. sigo o Acordo Ortográfico.
as duas únicas boas razões para se ser contra a nova ortografia da Língua Portuguesa são a ignorância e a preguiça. todas as outras são piores.
hoje até concordo com aqueles que andam para aí a dizer que o grande Fernando Pessoa nunca concordaria com a nova ortografia. e têm toda a razão. o Fernando Pessoa não concordaria. era um aristocrata, levemente monarchico. vejam lá que nem sequer concordou com a ortografia de 1911, que eles tanto defendem. é que ele defendia a ortographia archaica. ponto final. paragrapho.
esqueça-se o chauvinismo, a xenofobia e o colonialismo recesso e arrogante, e a importância da nova ortografia impõe-se por si mesma. na verdade, a força do graçamourismo não está na sua argumentação patética e pseudolinguística, mas na habilidade com que explora o lado mais negro da alma portuguesa.
vi há dias um desses textos muito criativos dos graçamouristas. dizia ele que nós, os adeptos e seguidores da nova ortografia, usamos um Português amputado. usamos, sim senhor, amputado dos pontos negros, verrugas, cravos e tumores ortográficos que o desfeavam e complicavam a leitura da escrita. ainda bem que os amputámos.

Este texto é de José Cunha-Oliveira, e foi publicado aqui a 16 junho 2011.
Sugere-se vivamente a leitura das entradas seguintes do mesmo autor disponíveis no link; a acompanhar.

A transcrição respeitou a opção do uso de maiúsculas do original.

setembro 13, 2012

Visão: Regras do Acordo Ortográfico - vol.1




Visão desta semana oferece o primeiro de dois volumes de um manual explicativo do Acordo Ortográfico. Trata-se de uma versão "revista e ampliada" de uma edição anterior.




Este 1º volume expõe as seguintes mudanças ortográficas:
- Alfabeto
- Minúsculas
- Maiúsculas e minúsculas
- Consoantes mudas e duplas grafias
- Acentuação
- O uso do hífen
- Minidicionário da Mudança

setembro 09, 2012

A espanhola do "Público" está contra o AO90 mas não está contra a "Nueva Ortografía" de 2010

Uma espanhola, de nome Rocio Ramos, foi a mais recente convidada do subdiretor do 'Público", Nuno Pacheco,  para emitir opiniões difamatórias sobre o AO90, perante o incómodo cada vez menos mudo de responsáveis e jornalistas daquele diário.

Esta espanhola de Nuno Pacheco manifesta irritação pela uniformização da ortografia da Língua Portuguesa, emite opiniões técnicas sobre o AO90 (apesar de se reconhecer incompetente para o efeito), deturpa grosseiramente o âmbito e o propósito do AO90, e pretende o Português equiparado às Línguas menorizadas do Estado espanhol (galego, basco, catalão e valenciano).

Mais ainda, a espanhola de Nuno Pacheco acha que o Português devia ser como o Espanhol porque em Espanhol (1) são aceites várias normas ortográficas e, (2) é a “RAE [Real Academia Espanhola de Letras] quem dita as normas, uma vez que é a Espanha o país do qual a Língua é originária.”.

Ora, se a espanhola de Nuno Pacheco - e o próprio Nuno Pacheco - se tivessem dado ao trabalho de consultar os sítios da RAE e da  ASALE, teriam lido o seguinte:
La política lingüística panhispánica
En los últimos años [após 1999], la Real Academia Española y las veintiuna [21] Academias de América y Filipinas que con ella integran la Asociación de Academias de la Lengua Española vienen desarrollando una política lingüística que implica la colaboración de todas ellas, en pie de igualdad y como ejercicio de una responsabilidad común, en las obras que sustentan y deben expresar la unidad de nuestro idioma en su rica variedad: el Diccionario, la Gramática y la Ortografía. Continuar a ler aqui 

Portanto, e ao contrário do que divulga o Público, o Espanhol tem uma ortografia unificada apesar da grande diversidade fonética e de léxico, e a Real Academia Espanholda de Letras não tem supremacia sobre a emissão de documentos normativos da Língua.

E se alguém no Público gastasse menos tempo a odiar a internacionalidade da Língua Portuguesa e investigasse mais sobre a unidade na diversidade de outras Línguas internacionais como, por exemplo, o Espanhol, saberia que em 2010 foi publicada a nova Ortografía que, malgrado o nome, constitui uma reforma ortográfica com mais novidades e alterações do que as introduzidas pelo AO90.

E assim, sem mais, para a espanhola do Nuno Pacheco e outros opositores ao AO90, o “exemplo espanhol” passa, num ápice, de “bom” a “mau”.

O ódio cega, e o ódio de Nuno Pacheco ao AO90 é tão grande que o impediu de ver que a sua espanhola não tem as bases de conhecimento mínimas para publicar opiniões sobre ortografia da sua Língua numa folha paroquial domingueira, muito menos para publicar opiniões sobre a Língua de outros num jornal nacional. A respeito de espanholas, o Nuno Pacheco deveria fazer como o Eça: falava nelas, mas não as punha a falar.


Mas nem tudo é mau, porque a espanhola Rocio do Publico declara-se amante da Língua Portuguesa, pelo que o seu amor ao Português pode ser canalizado para nobres fins.

Assim, a espanhola Rocio do Público poderia associar-se à Além Guadiana no esforço desigual que esta associação oliventina desenvolve para reabilitar a cultura e Língua portuguesas em Olivença, ambas à beira da extinção ao fim de 200 anos de linguicídio perpetrado pelo estado espanhol naquele território ocupado.

A espanhola Rocio do Público poderia também associar-se à Academia Galega da Língua Portuguesa na obra de promoção da reintegração do Galego-Português na dimensão internacional da Língua, única forma de reverter o processo de descaraterização e implosão da variante mais antiga do Português, submetida oficialmente à ortografia castelhana.

Como é evidente, estas associações adotaram o AO90 porque a permanência do Português oliventino e do Galego como ghettos linguísticos foi e é um fator de anulação e inutilidade, logo, de extinção.


Finalmente - e já que a espanhola Rocio do Público acha que os portugueses devem preferir o separatismo linguístico à unidade, a etimologia clássica à simplificada - sugere-se que ela vá para o seu país defender o mesmo para a sua Língua, isto é, que peça a consagração de ortografias diferenciadas em cada um dos países espano-falantes, e que proponha que em Espanhol se passe a escrever “objecto” em vez de “objeto”, "occulto" em vez de "oculto", “quanto” em vez de “cuanto”.

agosto 30, 2012

Prossegue a Atualização Ortográfica dos Livros Escolares

O plano de atualização ortográfica dos livros escolares, atualmente em curso, terminará no ano letivo de 2014/15, disse à agência Lusa o secretário-geral da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), Miguel Freitas da Costa. 
 "O plano acordado em 2010 com o Ministério da Educação está a ser cumprido dentro dos prazos", garantiu, numa referência ao acordo negociado entre os editores e o MEC, segundo o qual os manuais escolares vão sendo atualizados ortograficamente até ao ano letivo de 2014/15, permitindo a coexistência das duas grafias.
Fonte: RTP

agosto 26, 2012

Não Tenhas Medo, Pedro


O Pedro Afonso, membro da Associação de Estudantes do IST, também teve um lugar na campanha de difamação antiAO90 que o Publico tem vindo a promover. Vai daí, o Publico publicou na 6af passada um artigo assinado pelo Pedro Afonso. Nele, o Pedro Afonso enuncia os muitos medos tem sobre o AO90.


O Pedro é um jovem, e estou certo que aceitará bem o tom pessoal e o tratamento  por “tu” que uso neste post que lhe dirijo.


Pedro, tu começas por ter medo do Acordo Ortográfico porque ele é uma medida "prepotente e antidemocrática" (sic) fixada por via legal. No entanto, não tens preocupações dessa natureza quando à ortografia que usas e que queres continuar a usar e que foi fixada por via legal em 1911 e atualizada também por via legal em 1945 e 1973, em todos os casos em momentos históricos em que as eleições eram uma farsa. Então, se não tens problema em usar e manter uma norma ortográfica fixada em ambientes políticos pouco ou nada democráticos, porque hás de ter medo de uma atualização fixada e implementada em legislaturas democráticas? Não tenhas medo, Pedro.


Pedro, tu achas que o AO90 vai fracassar porque falha o propósito de unificar o “vocabulário” (sic) e a sintaxe. Mas tens de ir ler melhor o AO90, Pedro, porque o propósito do AO90 é a uniformização da ortografia, e não do léxico nem da sintaxe. E também não deves ter dúvidas sobre a exequibilidade do propósito, basta lembrares-te que, por exemplo, o Espanhol e o Árabe têm sintaxes e léxicos mais diversificados que o Português e, no entanto, todos os países que os usam oficialmente se empenham em manter uma norma ortográfica única. Em que é que nós, portugueses e brasileiros, somos inferiores a marroquinos ou iemenitas, a espanhóis ou argentinos? Não tenhas medo, Pedro.


Pedro, tu tens medo de que portugueses deixem de perceber que os egípcios são naturais do Egito uma vez que Egito já não se escrever com ‘p’ mudo. Mas lembra-te que os portugueses já hoje percebem de onde são os vimaranenses e os cipriotas, e que estas discrepâncias dos gentílicos são raras mas aceitáveis em Português. Não tenhas medo, Pedro.


Pedro, tu AINDA (!!!) acreditas que dizíamos “recepção” com a pré tónica aberta porque estava lá um ‘p’ mudo para indicar a pronúncia correta. Mas tu não podes escrever coisas destas, Pedro, porque nos deixas com dúvidas sobre os teus hábitos de leitura, ou pelo menos sobre a atenção com que o fazes. Repara que, em Português, existem muitas palavras que têm pré tónica aberta sem o “auxílio” de uma muda, e muitas outras que têm pré tónica fechada apesar do “auxílio” de uma muda.  

E para te ajudar a ultrapassar a "Falácia das Mudas Diacríticas", aqui fica um exercício para resolveres: “Nas palavras seguintes, assinala as que têm pré tónica fechada, as que têm pré tónica aberta, e diz a importância que tem uma consoante muda para indicar a pronúncia correta em todas elas: bebé, actuar, caveira, vexame, especado, exactidão, tactear, pateta, dilação”.

Como vês, consoantes mudas não abrem (nem nunca abriram) vogais pré tónicas. Não tenhas medo, Pedro.


Pedro, tu tens medo das novas facultatividades consagradas no Português pelo AO90. Mas as facultatividades existiam, existem e existirão enquanto o Português for uma Língua viva, ficando ao critério dos falantes determinar, com o tempo, as formas que se mantêm e as que passam a obsoletas. O Latim não tem recebido facultatividades, porque está morto, mas o Português recebe, porque está vivo. Não tenhas medo, Pedro.


Pedro, tu tens medo das potenciais perdas económicas com a mudança de ortografia. Mas não tens razões para ter medo de tais coisas. Em primeiro lugar, o AO90 não constituiu uma rotura com a norma ortográfica anterior, pelo que não foi, como não é, ao contrário do que escreveste, necessário substituir livros nem reverter documentos para a ortografia atual. No que respeita a manuais escolares, eles têm vindo a ser substituídos ao ritmo normal, e foi até para atender à sua validade se estipulou um prazo de seis anos para o período de transição.

O teu medo das perdas económicas levou-te até a pensar que o AO90 pode prejudicar as exportações de edições portuguesas para o Brasil. Mas há boas notícias que te vão deixar feliz, porque está a acontecer precisamente o contrário daquilo que temias, como podes ver aqui: o AO90: da inutilidade à utilidade. Não tenhas medo, Pedro.


Pedro, tu tens medo que o AO90 tenha efeitos perniciosos sobre a pronúncia das gerações futuras. Oh Pedro, mais isso não pode ser, um homem novo com preconceitos de gente velha! A respeito dos vindouros, não te metas no que não te diz respeito. Nenhum de nós tem o direito de querer determinar as escolhas das gerações futuras, muito menos como irão pronunciar o que quer que seja. O futuro pertence a quem nele viver. A única obrigação que temos para com os mais novos é educá-los no sentido da responsabilidade e do desenvolvimento das suas capacidades intelectuais e outras. E, já agora, não lhes deixar dívidas, ao contrário do que fizeram as duas ou três gerações anteriores à tua.


E concluo com um apelo: Pedro, tu desfaz-te de preconceitos xenófobos antibrasileiros e da influência nefasta do lobby dos maus tradutores. Pensa pela tua própria cabeça, não enfies o barrete dos malsãos. Empenha-te em viver no teu tempo, não vivas agarrado ao passado, nem sequer o ortográfico. Faz justiça à tua idade, não queiras ser um homem novo com cabeça de velho. Alarga a tua visão do mundo, recusa os ghettos, linguísticos ou outros. 

E estuda, rapaz, porque se tivesses estudado, não te tinham enganado.

agosto 18, 2012

As Falácias Etimológicas de Rui Miguel Ventura Duarte

Em artigo de opinião publicado no Público de ontem, Rui Miguel Ventura Duarte, um opositor ao AO90, defende que a Língua Portuguesa vive bem sem as consoantes mudas etimológicas eliminadas unilateralmente em Portugal através da Reforma Ortográfica de 1911 (RO1911); em contrapartida, ele tem a certeza que os resquícios etimológicos mudos remanescentes da RO1911 (e que são eliminados pelo AO90), esses são imprescindíveis à inteligibilidade da Língua Portuguesa.

Esta posição é verdadeiramente insustentável atendendo às incongruências e inconsistências - ao mesmo tempo linguísticas e lógicas – que encerra.

A este respeito, é bom recordar que a RO1911 eliminou da ortografia portuguesa a grande maioria das consoantes mudas etimológicas, escapando apenas aquelas que, supostamente, tinham valor fonético. Exemplificando, o 'c’ mudo etimológico nas palavras 'construCção' ou 'oCculto' foi eliminado porque não era pronunciado, mas o 'c' mudo etimológico nas palavras 'redaCção' ou 'aCtuar' foi mantido porque se pretendeu que influenciava a pronúncia da vogal átona anterior.

Nesta circunstância, como é possível Rui Duarte considerar que as consoantes mudas que sobraram da razia simplificadora de 1911 são componentes imprescindíveis ao bom entendimento da Língua e, simultaneamente, considerar que  o grosso das consoantes mudas abandonadas e esquecidas desde há cem anos não fazem falta à mesmíssima inteligibilidade?

Exemplificando, se Rui Duarte acha que os portugueses agora não sabem o que é uma “atriz” porque deixaram de escrever “aCtriz”, como é possível ele achar que os portugueses entendem corretamente o que são "contratos", ou "aflições" ou "conjunturas", ou "ocasiões" uma vez que não escrevem "contraCtos", "afliCções", "conjunCturas" e "oCcasiões", como se fazia há cem anos?


A partir daqui é quase impossível continuar a abordar o artigo de opinião de Duarte sem lhe expor o ridículo, sem o reduzir ao absurdo.


É que Rui Duarte também está seguro que os portugueses deixarão de perceber qual o país de origem dos egipcios agora que Egito se escreve sem 'p' mudo. E tem boas razões para estar preocupado. Afinal, e pelas mesmas razões, quem sabe de onde são naturais os cipriotas ou os monegascos? (saber mais)

Mas, e ao contrário do que Rui Duarte imagina, os problemas com a simplificação ortográfica não afetam apenas os portugueses.
Os ingleses têm imensa dificuldade em perceber o verdadeiro significado da palavra 'fantastic' uma vez que a escrevem sem a transliteração tradicional da letra 'phi' do étimo grego.
De igual modo, os franceses têm dificuldade em perceber o que significam as palavras 'projet' e ‘exagerer’ porque lhes faltam, respetivamente, o 'c' e o 'g' (que seriam mudos se fossem grafados) de étimo latino.
Há ainda que considerar os problemas que alemães têm para perceber plenamente o significado da palavra ‘direktor', assim com o 'k' no lugar do 'c' etimológico porque aquele 'k' é fonético, não é etimológico, ao contrário do que alguns julgam saber.

Acontece que estes são os mais felizardos. Porque pior estão os nórdicos (finlandeses, suecos, noruegueses, dinamarqueses), e os eslavos (checos, polacos, eslovenos) e outros latinos (como os espanhóis e os romenos), todos com uma ortografia terrivelmente simplificada, ainda que um pouco menos que os italianos.

Por falar em italianos, imagine-se a projeção internacional que Verdi poderia ter atingido se tivesse escrito as suas óperas numa língua mais respeitadora da etimologia, como o francês ou inglês. E Leonardo da Vinci, esse renancentista quase desconhecido; hoje seria considerado a mais brilhante mente da humanidade não tivesse ele tido o infortúnio de ter escrito às avessas e, o que é pior, de o ter feito numa ortografia quase fonética.


Portanto, talvez Rui Duarte deva seguir o bom conselho de António Emiliano, o mais lúcido dos opositores ao AO90, que acha que o argumento etimológico contra o AO não vale um caracol, e que quem o usa se põe a jeito para ser ridicularizado ao referir a importância do pechisbeque etimológico em ortografias etimológicas simplificadas, como a portuguesa.


Nota: Este post é uma adaptação e ampliação de comentário do autor publicado no Delito de Opinião. O autor agradece a oportunidade de publicação no 'em Português Grande'.

agosto 17, 2012

"Por que estou a favor do Acordo Ortográfico"

Aqui fica uma descoberta tardia mas preciosa:


 "Por estou a favor do Acordo Ortográfico"
1º - Porque não somos donos da língua portuguesa. Existem cerca de 225 milhões de lusófonos e nós, em Portugal, somos apenas 10 milhões.
Fundámos a sociedade, mas detemos só 5 por cento das acções. Queremos mandar em quem? Esse notável instrumento de comunicação representa, a par das Descobertas, um dos nossos maiores legados para a cultura universal. Criámo-la, mas constituímos uma minoria das pessoas que a falam. Ela é já muito maior do que nós. Fernando Pessoa, cidadão da palavra, compreendeu isto quando afirmou, há um século: “A minha Pátria é a Língua Portuguesa”.
2º - Porque considero necessário e útil um instrumento regulador.
As línguas são vivas e tendem a diversificar-se em cada dia que passa. Basta pensarmos no crioulo de Cabo Verde e lembrar os escritos de Mia Couto.
As pressões de outros países sobre os PALOPs não vão deixar de crescer e hão-de ter também repercussão linguística.
Dentro em breve, com acordo ou sem ele, os livros escolares dos PALOPs serão feitos no Brasil, onde os custos de produção são mais reduzidos. As telenovelas brasileiras constituem um instrumento poderoso de divulgação da língua. Não somos suficientemente competitivos nessa área.
Quer nos agrade, quer não, se a língua portuguesa perdurar no mundo, será na versão brasileira.
3º - Porque considero melhor existir um mau acordo do que não haver nenhum e deixar a língua à solta, sem nenhum mecanismo que tente, ao menos, regulá-la. São necessárias directrizes que exerçam um papel de contenção e de estruturação nas variantes que estão a nascer espontâneamente, um pouco por toda a parte.
E, tanto quanto sei, o acordo nem é assim tão mau. Não sou linguista e mal me atrevo a meter a foice nesta seara mas, a meu ver, boa parte das alterações propostas vem apenas apressar uma evolução que iria ter naturalmente o mesmo resultado, anos mais tarde. Para que servem as consoantes mudas ou não articuladas?

Este texto foi escrito em 2010 por António Trabulo, médico neurocirurgião, escritor e historiador autodidata; o original está disponível aqui.

Sair de casa e conhecer outros lugares resulta nisto: largueza de espírito e estar de bem com um mundo que todos os dias dá uma volta sobre si mesmo.

agosto 11, 2012

Mais Opositores Modelo ao AO

Já tinha sido referido neste blog que os opositores ao AO em Portugal evidenciam geralmente duas caraterísticas: a necessidade de viver num ghetto linguístico, e/ou, o desconhecimento do conteúdo do AO.

O caso seguinte é exemplificativo da segunda das caraterísticas mencionadas.

Segundo o Correio da Manhã, Iva Domingues utilizou a sua página oficial de Facebook para fazer um desabafo, mas acabou por ser alvo de duras críticas. A apresentadora da TVI afirmou que recusa escrever segundo o novo acordo ortográfico. No entanto, mostrou-se ‘confusa' quanto às normas deste tratado. "Não, não vou seguir o acordo ortográfico! Vou continuar a dizer, morto e não matado. Pago e não pagado".

Para quem (ainda) não saiba, o AO90 não diz respeito à sintaxe, mas apenas à ortografia.

Entretanto, Iva Domingues apagou o comentário erróneo do seu mural do Facebook depois de devidamente esclarecida pelos “fans”, muitos deles compreensivelmente aborrecidos e zangados.