Mostrando postagens com marcador Divulgação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Divulgação. Mostrar todas as postagens

abril 18, 2013

A oposição ao AO vista pelos melhores desacordistas

Republico no nosso em Português Grande o post publicado ontem no Aventar.
A republicação tem os links alterados para os posts aqui publicados.



Embora em fase de rescaldo, o tema AO teve entre nós debate aceso. Tal deveu-se, por um lado, ao atavismo da sociedade portuguesa, bem visível na nossa história nos últimos duzentos anos. Por outro lado, nós, portugueses, temos esta propensão para a querela, como as longas discussões em torno do futebol fora das quatro linhas demonstram. Não me revendo eu no primeiro defeito, revejo-me certamente no segundo, pelo que não poderia desperdiçar a oportunidade que me foi oferecida pelo JJCardoso, que agradeço, e publicar algo sobre o tema no Aventar.


Todas – rigorosamente todas – as objeções ao AO90 já foram exaustivamente desmontadas. No entanto, sendo o desacordismo um fenómeno para-religioso, ele impede os crentes de ler fora da vulgata, pelo que tudo se resume a recitar suras desacordistas e outras coisas absurdas. O desacordismo, pela sua natureza, impede o desacordista de ler um único argumento contrário, e assim se explica porque motivo os “debates” sobre o AO promovidos por desacordistas não incluem acordistas. Os desacordistas mais facilmente batem uns nos outros do que debatem com outros.

Então, como podemos nós ultrapassar esta impossibilidade de levar luz à caverna lúgubre do desacordismo? Como vencer esta dificuldade de fazer o desacordista ler fora da sua área de conforto emocional e intelectual? Talvez pedindo ao desacordista para atender apenas à opinião de outro desacordista. É o que farei aqui.


António Emiliano, linguista, professor universitário, mostrou ser o opositor ao AO mais valoroso no debate técnico do tema. Vejamos que ele tem a dizer sobre um dos principais pilares da oposição ao AO, a questão etimológica (extrato da nota 47 do facebook de Emiliano, a 16 de abril 2012):
O problema “técnico” principal desta hedionda Base IV devoradora de letras e brasilificadora do português língua escrita não é etimológico, como clamam alguns desacordistas. […]
A matriz ortográfica greco-latina da língua portuguesa há muito que foi desfigurada por decreto (e cá continuamos, escrevendo português, de forma menos bela e adequada, mas português quand-même): invocar a dita matriz greco-latina é argumento que não vale um caracol na presente controvérsia e só serve para alimentar a imagem negativa que os acordistas gostam de dar a quem lhes faz frente.
Devastador. O citado faz notar que se reserva o direito de mudar de opinião. Mas com ou sem mudança de opinião, com ou sem signatário, filho querido ou enjeitado, este esplêndido trecho ganhou vida própria e sobrevive à vontade ou parecer do genitor, como sempre acontece à obra do operário que se transcendeu. Link.


Vasco Graça Moura, homem da cultura e de letras, foi o mais mediático dos opositores ao AO. No auge da questão, há cerca de um ano, Moura deu uma entrevista ao jornal O Globo. Vejamos o que ele tem a dizer a quem imagina que “A Língua É Nossa” ou que “Existem Duas Línguas Portuguesas”.
O Globo: Muitos opositores do acordo em Portugal dizem que a língua é dos portugueses. O que o senhor acha dessa afirmação? 
VGM: Não tem pés nem cabeça. A língua portuguesa é património de todos que a falam como língua nacional.
Lúcido. Ainda que só por uma vez. Link..


Miguel Tamen, professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, vê as coisas de outra forma. Ainda que Tamen aceite que “o AO desliga o Português da matriz greco-latina”, ao contrário de Emiliano, ou que “a Língua é nossa”, ao contrário de Moura, ele pensa que essas e outras falácias não são objeções fundamentais ao AO; para ele, a essência da questão é outra, como se pode ler numa entrevista ao i:
i: Qual é então essa sua principal objecção?
MT: Eu acho que o acordo é mau porque a ideia de lusofonia é má. Na minha opinião, tudo o que invoque a noção de lusofonia me parece deplorável.
Honesto. Tamen está mais próximo do fulcro da questão, porque o fulcro da questão da aceitação ou rejeição do AO é político; só é ortográfico na medida em que foi, como é, necessário mascarar resistências sociológicas e corporativas envergonhadas, de tão vergonhosas. Link.


Termino com a opinião de outro desacordista, João Ferreira Dias. No trecho que se segue, JFDias faz uma espécie de resumo da matéria e diz o seguinte:
Naturalmente que a nostalgia que habita em mim prefere "actor" a "ator", "acção" a "ação", por exemplo, mas também "Pharmacia" a "Farmácia". Ora, de "Pharmacia" ninguém falava, pelo simples facto de já ter caído em desuso faz tempo. Tal significa - e este ponto é importante - que a grafia portuguesa não se manteve estanque e a forma como os meus pais aprenderam a grafar algumas palavras é diferente daquela que aprendi, trinta e tal anos depois.Portanto, a razão da recusa do acordo ortográfico por parte de inúmeros cidadãos portugueses não deverá residir num apego à originalidade da língua, porque se for essa a razão estamos mal, afinal a grafia pré-acordo é já uma degeneração do português arcaico, por exemplo, porque ou muito me engano ou já ninguém escreve nos seguintes moldes:"Razoões desvairadas, que alguuns fallavam sobre o casamento delRei Dom Fernamdo".
Desta forma, só consigo vislumbrar uma razão simples para que o Acordo Ortográfico seja visto como uma abominação - o facto de ser um acordo com o Brasil. Sendo assim, o problema nada tem a ver com a grafia mas reside antes em recantos da xefonobia e do preconceito, resultantes de processos civilizacionais mal resolvidos.
Brilhante. Suspeito que, por esta altura, a maioria dos desacordistas não tenha estofo psicológico para ler na íntegra o post de onde este trecho foi extraído. Link.


É possível que, para muitos desacordistas esta tenha sido a primeira vez que tomaram conhecimento de opiniões divergentes da vulgata descordista. Se tiver sido assim, este post já valeu a pena, mesmo que não tenha demovido nenhum dos crentes.


PS - backlink no Lusofonias.

setembro 24, 2012

“ATIV”; a SAMSUNG aderiu às vantagens fonéticas e gráficas da Língua Portuguesa





A ideia foi procurar uma designação que indiciasse as qualidades que o fabricante associa à gama: simples, poderoso, belo. Por alguma (boa) razão, os responsáveis de marketing perceberam que “ATIV” é melhor que “ACTIV”.

Em jeito de graça, pode bem dizer-se que a SAMSUNG descobriu agora o que a Língua portuguesa descobriu há séculos; de facto uma das principais caraterísticas evolutivas e identitárias do Português é a rejeição das sequências consonânticas.
Exemplos: respectare>respeitar,  septimo>sétimo, damnu>dano, signale>sinal, contractu>contrato, activus>ativo.

Parece que na SAMSUNG também há quem goste do AO90 e do Português.


setembro 20, 2012

Visão: Regras do Acordo Ortográfico - vol.2





A Visão desta semana oferece o segundo de dois volumes de um manual explicativo do Acordo Ortográfico.




Índice do 2º volume:
- Trocado por miúdos [exemplos de aplicação]
- Agora sem ajuda [exercícios]
- História da ortografia
- Polémica


setembro 13, 2012

Visão: Regras do Acordo Ortográfico - vol.1




A Visão desta semana oferece o primeiro de dois volumes de um manual explicativo do Acordo Ortográfico. Trata-se de uma versão "revista e ampliada" de uma edição anterior.




Este 1º volume expõe as seguintes mudanças ortográficas:
- Alfabeto
- Minúsculas
- Maiúsculas e minúsculas
- Consoantes mudas e duplas grafias
- Acentuação
- O uso do hífen
- Minidicionário da Mudança

agosto 17, 2012

"Por que estou a favor do Acordo Ortográfico"

Aqui fica uma descoberta tardia mas preciosa:


 "Por estou a favor do Acordo Ortográfico"
1º - Porque não somos donos da língua portuguesa. Existem cerca de 225 milhões de lusófonos e nós, em Portugal, somos apenas 10 milhões.
Fundámos a sociedade, mas detemos só 5 por cento das acções. Queremos mandar em quem? Esse notável instrumento de comunicação representa, a par das Descobertas, um dos nossos maiores legados para a cultura universal. Criámo-la, mas constituímos uma minoria das pessoas que a falam. Ela é já muito maior do que nós. Fernando Pessoa, cidadão da palavra, compreendeu isto quando afirmou, há um século: “A minha Pátria é a Língua Portuguesa”.
2º - Porque considero necessário e útil um instrumento regulador.
As línguas são vivas e tendem a diversificar-se em cada dia que passa. Basta pensarmos no crioulo de Cabo Verde e lembrar os escritos de Mia Couto.
As pressões de outros países sobre os PALOPs não vão deixar de crescer e hão-de ter também repercussão linguística.
Dentro em breve, com acordo ou sem ele, os livros escolares dos PALOPs serão feitos no Brasil, onde os custos de produção são mais reduzidos. As telenovelas brasileiras constituem um instrumento poderoso de divulgação da língua. Não somos suficientemente competitivos nessa área.
Quer nos agrade, quer não, se a língua portuguesa perdurar no mundo, será na versão brasileira.
3º - Porque considero melhor existir um mau acordo do que não haver nenhum e deixar a língua à solta, sem nenhum mecanismo que tente, ao menos, regulá-la. São necessárias directrizes que exerçam um papel de contenção e de estruturação nas variantes que estão a nascer espontâneamente, um pouco por toda a parte.
E, tanto quanto sei, o acordo nem é assim tão mau. Não sou linguista e mal me atrevo a meter a foice nesta seara mas, a meu ver, boa parte das alterações propostas vem apenas apressar uma evolução que iria ter naturalmente o mesmo resultado, anos mais tarde. Para que servem as consoantes mudas ou não articuladas?

Este texto foi escrito em 2010 por António Trabulo, médico neurocirurgião, escritor e historiador autodidata; o original está disponível aqui.

Sair de casa e conhecer outros lugares resulta nisto: largueza de espírito e estar de bem com um mundo que todos os dias dá uma volta sobre si mesmo.